A educação do ser poético

Atualizado: 19 de fev. de 2021

Abaixo, uma reprodução de um texto do grande escritor Carlos Drummond de Andrade, de 1974. Indentificamos nele a busca diária da Lúcia Castanheira Escola de Artes, em resgatar a comunhão do ser poético das crianças, dos jovens, adultos e terceira idade. Drummond fala na ignorância do prazer estético, na tristeza de envarar a vida como dever pontilhado do tédio. Faltam amadores de poesia – e amar a poesia é forma de praticá-la, recriando-a.


Carlos Drummond de Andrade

Publicado no Jornal do Brasil, Rio de Janeiro – RJ, 20/ 07 /1974.

"Por que motivo as crianças, de modo geral, são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo?

Será a poesia um estado de infância relacionada com a necessidade de jogo, a ausência de conhecimento livresco, a despreocupação com os mandamentos práticos de viver – estado de pureza da mente, em suma?

Acho que é um pouco de tudo isso, se ela encontra expressão cândida na meninice, pode expandir-se pelo tempo afora, conciliada com a experiência, o senso crítico, a consciência estética dos que compõem ou absorvem poesia.







Mas, se o adulto, na maioria dos casos, perde essa comunhão com a poesia, não estará na escola, mais do que em qualquer outra instituição social, o elemento corrosivo do instinto poético da infância, que vai fenecendo, à proporção que o estudo Sistemático se desenvolve, ate desaparecer no homem feito e preparado supostamente para a vida? Receio que sim.







A escola enche o menino de matemática, de geografia, de linguagem, sem, via de regra, fazê-lo através da poesia da matemática, da geografia, da linguagem. A escola não repara em seu ser poético, não o atende em sua capacidade de viver poeticamente o conhecimento e o mundo.


Sei que se consome poesia nas salas de aula, que se decoram versos e se estimulam pequenas declamadoras, mas será isso cultivar o núcleo poético da pessoa humana?